Vicariato Episcopal Norte




quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A MORTE CRISTÃ

Lina Boff
Teóloga pós-doutorada pela Gregoriana de Roma
Docente da Pontifícia Universidade Católica - Rio de Janeiro

INTRODUÇÃO.
Deus, como Comunidade de Amor relacionada com a pessoa humana e toda a criação, criou tudo para ser eterno. A morte no entanto designa o fim absoluto de tudo o que existe de bom e de mau. Enquanto símbolo a morte é o aspecto destrutível da existência. Ela indica aquilo que desaparece na evolução irreversível das coisas. Por outro lado, a morte introduz aos mundos do Inferno ou do Paraíso. As Ciências Humanas e a experiência mística perceberam que em todo ser humano, em todos os seus níveis de existência, co-existem a morte e a vida no sentido de uma tensão entre duas forças contrárias. Essa tensão se expressa no conflito entre o perecimento inexorável da vida física e o desejo imanente da perpetuação da vida. Por outro lado a morte representa, para o cristão, a transição entre a forma de vida física que se extingue com ela e o início de uma nova forma de vida. A morte como libertadora das penas e preocupações, ela não tem um fim em si mesma, ela abre o acesso ao reino do espírito, à vida verdadeira. Por isso a morte é vista como porta da Vida, “mors janua Vitae”.

Se o ser humano que ela abate vive no nível espiritual, ela lhe revela os campos da luz; ao contrário, se o ser que ela abate vive apenas no nível material ou biológico, ele fica na sombra dos infernos. Além do seu significado etimológico original, o termo morte assume inúmeras significações segundo a interpretação dada pelas várias culturas e crenças ao longo da história. Este trabalho focalizará, em especial, as duas dimensões teológicas da morte: a morte física e a morte espiritual. Ao final o significado da morte de Cristo será destacado no enfoque da morte por amor e da morte como mistério pascal.

I. ETIMOLOGIA DA PALAVRA E SEU SIGNIFICADO BÍBLICO. O vocábulo morte, de acordo com as fontes hebraicas e gregas consultadas, está ligado a diferentes conceitos escatológicos.

1. Significado no AT. O pensamento vétero-testamentário introduz lentamente na vida o significado da morte que representa o fim definitivo da pessoa humana sobre a terra (cf.2Sm 12,15ss). Pode-se considerar três fases importantes da evolução desse pensamento a partir da concepção mais antiga da morte. Na primeira fase enfoco a morte como evento natural que se dá no fim da vida humana; na segunda fase a morte é vista como a passagem de um estado material para outro superior; e a terceira fase enfoco que o pecado introduz a morte como punição do pecado.

Primeira fase: morte como extinção da vida. Seja no AT que no NT, são muitos os vocábulos que traduzem o evento da morte e do morrer, os quais lembram à pessoa humana, a impossibilidade de dispor da própria vida. Desde o tempo de Homero, cada ser vivente, exposto à morte, é considerado como thanetós, mortal. Os seres humanos sobretudo, são chamados hoi thanétoi, os mortais, à diferença dos deuses que são dotados de athanasía, imortalidade. Além dos vocábulos ligados a thánatos, que indicam a passagem da vida à condição de morte, e a própria morte, desde os primeiros tempos e precisamente dos tempos de Jesus, foram usados outros vocábulos para descrever o morrer ou o estado de morte, vocábulos que, na origem indicavam só o sono em grego hýpnos, enquanto o vocábulo teleutáu indica o morrer, entendido como o termo e conclusão da vida, que acontecem de maneira natural.

No período helenístico, o conceito de thánatos, junto com outros vocábulos, vem usado também no sentido translato para indicar a morte espiritual e intelectual. Para os gregos a morte significa que não existe mais vida, há sim o fim da existência e o aniquilamento do ser humano, também se as almas das sombras são acolhidas no reino dos mortos. A morte é o destino comum a todos os seres. O seu aspecto negativo é representado pelo fato de que a morte vem personificada como monstro dos lugares inferiores. Como não há uma fé na criação, não são levantadas perguntas sobre o porque da morte, à qual os seres humanos são submetidos pela natureza, enquanto os deuses são invejados por possuírem a imortalidade. Como normal conseqüência da idéia de que a morte é irreversível, deve-se gozar a vida profundamente. Paulo expressa essa idéia quando escreve aos Coríntios: Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos (1Cor 15,32). A sede de não perder sequer um momento de prazer, expressa a sensibilidade greco-romana. No contexto dessa mentalidade, muito vale aproveitar bem da vida, antes de submeter-se a uma vida amargurada pelo envelhecimento e pela debilidade física. Uma morte tranqüila depois de uma longa vida de prazer terreno, é considerada bem supremo, pois, a morte livra da nulidade da vida dentro de tal concepção.

Segunda fase: morte e imortalidade. Junto a essas formas de comportamento diante da morte, começam a se apresentar expressões de fé na imortalidade da alma. Esta encontra seu lugar de origem na experiência mística órfico-pitagórica, e pela primeira vez é discutida e motivada difusamente por Platão. Tal discussão se dá do ponto de vista filosófico, como complemento do seu conceito moral da pessoa: com a morte a alma se liberta do corpo, a dimensão imortal daquela mortal, da parte não sujeita à dor daquela do sofrimento. Pois que, a vida do filósofo, tem por finalidade, exclusivamente, o puro conhecimento intelectual, como uma meta profundamente desejada. Essas idéias sobre a imortalidade encontram ampla difusão no período do helenismo, sem porém determinar completamente a fé popular. Somente no néo-platonismo confluem idéias platônicas e aspectos mistéricos dos cultos orientais com aspectos míticos do gnosticismo, para formarem um sistema especulativo, no qual ocupa um lugar importante a transmigração das almas, a purificação progressiva e a elevação da alma além do mundo sensível.

Terceira fase: morte como processo evolucionista. A pessoa humana é compreendida aqui como uma totalidade que se insere dentro de outra Realidade bem maior, que passa pelo universo o qual envolve e abre o ser humano para uma vida sem finitude. Os estóicos da antigüidade já diziam que “somos membros de um grande corpo” que é o universo. Tudo isso ocorre dentro de um imenso processo de evolução regido pelo equilíbrio que se dá entre a vida e a morte. Esta vida apresenta uma estrutura organizada de tal maneira, que ela vai se desgastando lentamente, até acabar de morrer. No entanto, o equilíbrio leva a pessoa humana a tomar consciência de forma progressiva, de que sua essência reside na capacidade de relação ilimitada, indefinida, sempre aberta. Tal capacidade de relação, emerge como uma energia vital sempre desperta, sempre aberta a mergulhar no universo da interioridade humana.

Desse modo, a pessoa sempre se dispõe a fazer a experiência abraâmica de aventurar-se para o desconhecido, na busca do novo e da realidade ainda não experimentada. Nessa perspectiva a morte não é conseqüência do pecado, como se apresenta na compreensão judaico-cristã. Esta compreensão não soube acolher a vida imortal como dom divino que se manifesta no amor e na amizade com Deus e toda criação. A morte pré-existia ao pecado humano. Conseqüência do pecado é a forma concreta como experimentamos a morte. Ela faz parte da vida, mas sem destruir a vida.

A interpretação dada aos textos da tradição bíblica ao longo da história, revela a concepção que o povo de Israel tinha da morte. No pensamento vétero-testamentário a morte é separação de Javé, origem da vida. Assim se expressam os salmistas: Volta-te, Javé! Salva-me por teu amor! Pois na morte ninguém se lembra de ti, quem te louvaria no Sheôl? (Sl 6, 6). A pessoa humana que morre carregada de anos, deve ser feliz e reconhecida por ter vivido tanto. O recente Livro do Gênesis passa essa idéia: Quanto a ti (Abraão), em paz, irás para os teus pais, serás sepultado numa velhice feliz. Essa concepção não exclui a precariedade e os lamentos do curso veloz da vida (Sl 90), onde doenças e misérias tornam a vida humana amarga e levam o ser humano implorar a graça do seu Deus, para que o livre dos laços da morte e da descida aos infernos: Cercavam-se laços de morte, eram redes do Sheôl: libertou minha vida da morte, meus olhos das lágrimas e meus pés de uma queda (Sl 116, 3.8). Mas não é a morte como tal que causa medo e angústia, mas sim a morte prematura que vem da punição de Deus pela culpa do ser humano (Dt 13).

Porém, nos livros mais antigos da bíblia hebraica, a criação não pressupõe a imortalidade da pessoa humana, porque a morte, de um modo geral, não é vista como uma punição divina. Só bem mais tarde, a partir do tempo do exílio, o significado da morte se torna um problema que incomoda e interpela os israelitas dos últimos séculos antes de Cristo. Fala-se então de um processo de individualização das relações com Deus (cf, Jr 31, 29ss) e se busca a causa da morte no pecado do ser humano.

A partir dessa concepção, ao ser humano não sobra outra coisa que aceitar o comum destino da morte (cf. Gn 3,19). A morte não vem de fora. Ela se encontra instalada dentro de cada ser. A vida é mortal, por isso, numa compreensão evolucionista de toda criação, uma vida sem a morte é totalmente impensável. No entanto, não é a morte como tal que angustia esse ser humano que diante da morte, o enigma da condição humana se torna extremada (cf. GS 18), mas é sim a morte vista como punição de Deus pela culpa da pessoa humana. A narrativa de Gn 2 e 3 é explicada, desenvolvida e aprofundada muito claramente dentro dessa concepção.

2. Significado no NT. No NT o conceito de morte vai plenamente na linha do conceito vétero-testamentário. A palavra thánatos é usada muitas vezes nos evangelhos referindo-se à morte de Jesus. Paulo ao invés, refere-se à morte humana. Diante desse quadro, adquire uma importância toda particular a pergunta sobre a origem da morte. Quem responde é Paulo com esta frase carregada de sentido: o preço do pecado é a morte (Rm 6,23). O apóstolo mostra aqui que ele não vê a morte como um fenômeno biológico, mas teológico. Sempre que a pessoa humana rompe sua relação com Deus, Comunidade de Amor, que dá a vida aos mortos e chama à existência aquilo que não existe (cf. Rm 4,17), abandona a raiz de sua vida e cai na morte. A pessoa humana pode perceber sua situação vital de fundo e tomar consciência, que por culpa própria, vive na morte. A morte portanto, tem o poder sobre a vida e nesse sentido é uma realidade presente. A realidade da vida de pecado é constituída inseparavelmente, pela morte espiritual e pela morte física. Não sem razão a pessoa consciente de seu pecado grita: Quem me libertará deste corpo de morte? (Rm 7,24). A superação desse estado de pecado a que toda a criação está submetida, se realiza pela ação da graça divina que está além das possibilidades humanas e, ao mesmo tempo, essa graça que só pode vir de Deus Pai, através de seu Filho, pela força do Espírito Santo, é gratuitamente doada e na medida certa de cada ser humano.

Para o NT portanto, a morte não é um processo natural, mas um evento histórico que coloca às claras a existência da pessoa humana como ela é, na sua realidade única e irrepetível. Sendo a morte conseqüência histórica do pecado do ser humano, deve-se levar em conta a profunda ligação existente entre a morte humana e a de todos os seres viventes não humanos, numa palavra, o cosmo como criação de Deus. É ainda a reflexão de Paulo que nos dá uma resposta. A criação, não por sua vontade, mas por causa do pecado humano, é submetida à vaidade e à precariedade. E agora, em expectativa, anseia junto com cada um de nós, filhos de Deus, pela sua libertação da escravidão do pecado (cf. Rm 8, 19-22). Como se pode ver, para Paulo, nem mesmo a morte do cosmo é considerada um evento natural. Na completude dos tempos, tudo é criado de novo e a nova criação trazida pela morte de Jesus consuma a morte física e completa a nossa incorporação ao seu ato redentor.

II. AS DUAS DIMENSÕES TEOLÓGICAS DA MORTE. As duas dimensões da morte humana, a física e a espiritual, são tratadas agora, separadamente. A primeira dimensão é representada pelo fim da vida física, uma realidade inevitável a todo ser humano. A segunda dimensão é representada pelo fim da vida espiritual, uma realidade inexorável, cujo advento poderá ser evitado pelo uso correto da liberdade humana.

1. A morte física. Em sentido literal, a morte física é a extinção da vida, da existência, do tempo. Mas a pessoa humana é mais do que a vida, porque ultrapassa o espaço do tempo que decorre desde o nascimento até a morte, por ser destinada à eternidade. É mais do que a existência pelo fato de ser um ser humano em processo vital de movimento desde que nasce. É mais do que o tempo porque a pessoa humana experimenta o antes e o depois, como evento qualitativamente interior, que rompe com o tempo quantitativo e determina assim o valor do tempo como resposta carregada de sentido, diante da oferta divina do irrepetível tempo da graça salvadora. Para o cristão, homem e mulher, a morte física é um mistério próximo ao mistério da vida.

De fato, a complexidade do evento da morte é objetiva e facilmente percebida na multiplicidade das suas significações. Estas encontram forte ressonância na própria liturgia da qual a comunidade cristã participa, onde a morte é vista como um evento de dor e de alegria. Por uma parte reflete a atmosfera de dor e de tristeza que cabe a um acontecimento assim tão radical e grávido de conseqüências dilacerantes. Por outro justifica um inconfundível e paradoxal veio de ação de graças e até mesmo de alegria. A primeira conotação tem seu sentido que brota da separação das pessoas amadas, da perda das relações familiares e tranqüiliza a existência terrena do temor do inédito, do irrevogável e da possibilidade do fracasso. A segunda conotação nasce da consciência de fé, pois, a morte em Cristo não significa o fim, mas o início de tudo. Torna-se sumamente difícil para o ser humano ser introduzido em tal mistério, pois este é uma realidade divina, transcendente e salvífica que o ultrapassa, não pela obscuridade do mistério da morte, mas antes pela limitação da sua capacidade espiritual de penetrá-lo.

Fica claro que, para a vivência da fé cristã, a morte não pode ser reduzida àqueles fenômenos biológicos e médicos, que levam diretamente em estreita conexão cronológica à morte. Mas deve ser reconhecida como um processo que concerne toda a vida, processo do qual se pode falar de uma verdadeira e própria proximitas mortis – antecipação da morte -, ou de uma experiência de morte antecipada. O ser humano sempre se encontrará diante de uma experiência do morrer interior, que não é um fenômeno particular que se verifica aqui e ali na vida, mas um “humor fluídico” de fundo que tudo pervade.

Embora a sociedade hodierna reconheça os valores positivos da ciência e da técnica que conduzem o progresso e o desenvolvimento do mundo, a pessoa humana contudo, leva em séria conta seus limites. Antes de tudo, a vida atual é ainda prisioneira de suas angústias, de seus problemas, desequilíbrios e contradições. De acordo com o instinto do coração, a pessoa humana percebe que a sua existência não está limitada à experiência terrena; está consciente de trazer dentro de si mesma um germe de eternidade. Por isso reage à idéia de um aniquilamento da sua pessoa e das suas realizações. A ciência e as variadas confissões de fé constituem uma das fontes onde a pessoa humana busca uma resposta que a satisfaça e a tranqüilize nas suas inquietações. A revelação porém, lhe indica uma solução: a causa profunda da dor e da morte deve ser buscada no fechamento da pessoa humana à fonte da Vida. É o que a reflexão e a experiência do apóstolo Paulo afirmam, quando escreve aos Romanos, o pecado imperou na morte (Rm 5,21).

A experiência da finitude da vida física é vasta e é um dado constitutivo da existência humana que a provoca à reflexão a partir da fé cristã, pois, a morte física não se opõe à vida, mas ao nascimento. Por isso cada pessoa é chamada a viver a própria morte, no sentido de que esta se configura num ato profundamente humano que desemboca na plena realização do fim sobrenatural de felicidade para o qual a pessoa foi criada. Em Cristo, o ser humano atinge esse fim na medida em que se liberta pela força da vitória do Ressuscitado sobre a morte (1Cor 15, 56-57). Cristo, o homem novo, passa da morte à vida e envolve em si mesmo toda a espécie humana e toda a criação não-humana, levando-as reviver o mistério pascal. Graças a esse processo, a morte cristã tem um sentido positivo, pois traz consigo a novidade essencial que está nesse fundamento: Para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro (Fl 1, 21). Fiel a esta palavra de vida, a pessoa humana sabe com certeza de que, se com Cristo morre, com Ele viverá (2Tm 2, 11).

A partir desse momento muda a relação do ser humano com a morte física que passa a tomar um novo sentido: não é apenas um destino inevitável que pede resignação, aceitação de uma ordem superior sem questioná-la, uma condenação em conseqüência do pecado. Mas é morrer para o Senhor como se vive para Ele (cf. Rm 14, 7ss). No mistério do Senhor a morte física encontra agora sua base firme, porque entraremos num mundo em que não haverá mais morte (Ap 21,4).

2. A morte espiritual. A morte espiritual é a separação de Deus. Um dos traços que distingue a morte física da espiritual é a de que a primeira é inevitável, enquanto a segunda não o é, pois depende de uma decisão da pessoa humana que aceita a graça salvadora de Deus por meio de Jesus Cristo ou rejeita esse dom com seu fechamento, o que significa romper sua relação com Deus e com todas as coisas que a Ele se referem. E aqui afirma-se outra vez que a morte é o salário do pecado (Rm 6, 16). Pelo seu profundo nexo com o pecado, a morte espiritual é compreendida como o não dito a Deus, fonte de vida, pelo ser humano. Como a concepção de vida inclui não apenas a vida física, mas é o compêndio de todos os bens e bênçãos que o justo merece, em primeiro lugar a amizade com Deus, assim a concepção de morte espiritual pode abranger todo o mal e toda a infelicidade que cai sobre sobre a pessoa que não acata a graça divina.

Desse modo, tudo converge para mostrar que, na morte espiritual afirma-se a contradição e o paradoxo da própria pessoa. Por um lado, criada para usufruir eternamente da vida e, por outro, pela sua condição física, ameaçada naturalmente, por desejos e inclinações que competem com essa vida espiritual. Só na perspectiva cristã a morte espiritual pode se tornar o lugar da graça libertadora do pecado. Para o cristão a morte é o lugar privilegiado do devir da consciência do ser humano, da sua liberdade, do seu encontro com Deus como Comunidade relacionada pelo Amor e da decisão do seu destino eterno. Essa dimensão da morte comporta que ela seja um evento ativo que prepara a pessoa humana através das opções que faz na sua existência concreta de cada dia.

O evangelista Lucas coloca na pregação de Jesus a narrativa de duas parábolas que esclarecem muito bem, a meu ver, a morte espiritual e a morte física também. A parábola do mau rico e do pobre Lázaro (Lc 16, 19-31), mostra o estado da pessoa humana que morre de morte física, mas não morre de morte espiritual, isto é, seu espírito que vem da fonte de vida que é Deus, vive e goza da presença e da visão beatífica. É o caso do pobre Lázaro. Por outro lado, o estado da pessoa que morre não só de morte física, mas também de morte espiritual, não vive porque é atormentado. É o caso do mau rico.

Na parábola do filho pródigo (15, 11-32), o sentido da morte espiritual parece se tornar mais evidente ainda. A volta do filho ‘infiel’ que saíu de casa e esbanjou a herança recebida, ao voltar para a sua casa, o pai o recebe com alegria, festa, comida e muita gente para comemorar. Lucas mostra a misericórdia infinita do Pai nas palavras que atribui a Jesus que explica aos seus ouvintes o ensinamento de vida e de morte que a parábola traz: este meu filho estava morto e tornou a viver; ( Lc 15, 24). A morte de que fala o evangelista consiste na vida transviada do caminho do bem que o filho pródigo havia levado: separou-se do pai, dissipou seus haveres de herança, levou uma vida devassa. Tudo isso causou–lhe uma verdadeira morte espiritual.

A morte espiritual não é querida por Deus, pois Ele não se agrada com a morte do ímpio (Jó, 18, 5-21), do pecador, prefere que ele se converta e que viva: certamente não tenho prazer na morte do ímpio; mas antes, na sua conversão, em que ele se converta do seu caminho e viva (Ez 33, 11). Nesse contexto o profeta anuncia o estabelecimento de um reino escatológico, onde Deus destruirá para sempre essa morte que Ele não havia criado nas origens (cf. Is 25, 8ss). Os salmistas formulam a esperança de que Deus os livrará para sempre do poder do Sheôl (cf. Sl 49,16).

O sentido de morte espiritual é encontrada muitas vezes em João e Paulo. João a vê como conseqüência da incredulidade e do pecado. Passa da morte espiritual para a vida e vida eterna, a pessoa que se abre à escuta da Palavra e à fé no Enviado do Pai que é Jesus (Jo 5,24). Para não incorrer à morte espiritual, o evangelista sublinha que o alimento do cristão não é a carne que para nada serve, mas sim o espírito que vivifica e as palavras que dão vida (cf. Jo 6, 63). Auscultar a palavra de Deus, na fé, é fortemente sublinhada quando fala do ensinamento de Jesus com esta expressão: se alguém guardar a minha palavra, jamais verá a morte (Jo 8, 51). Fechar-se à verdade é morrer espiritualmente. A narrativa de Mateus atribuindo a Jesus o encorajamento que faz aos seus discípulos diante das perseguições por causa da pregação aberta da verdade, é ainda mais contundente. Recomenda aos seus discípulos que não temam os que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Temer antes aquele que pode destruir a alma e o corpo na geena (Mt 10, 28).

III. O SIGNIFICADO DA MORTE DE CRISTO. O sentido da morte é dado por Cristo que veio no meio de nós, assumindo a nossa condição humana, realizando o plano salvífico do Pai, submetendo-se à morte para reconciliar toda a humanidade com Deus e dar um sentido de vida a tudo aquilo que foi submetido ao pecado e à morte. Cristo fez isso como vencedor da morte e do pecado com sua ressurreição. A morte humana portanto, é o morrer do cristão como um morrer com Cristo (Rm 6, 8), um morrer no Senhor (1Cor 15,18). Nesse contexto, a morte de Jesus é vista e proclamada como o evento salvífico único e fundamental (Rm 6, 10). Vou abordar dois enfoques da única interpretação da morte, à luz da fé cristã. São eles: 1)- o enfoque da morte por amor; 2)- e o enfoque propriamente do mistério pascal.

1. A morte por amor: doação-serviço. Com Cristo a morte muda completamente de sentido e redime a criatura na sua condição originária, sem limites e sem pecado. A morte de Jesus é, em primeiro lugar, o modelo da morte cristã. Morrer como Jesus é viver na forma da dar a vida, na forma de missão. João explicita esse modo novo de morrer, quando descreve o ato do lava-pés na última ceia de Jesus com seus discípulos: tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim (Jo 13,1). Dar a vida é ir até o fim, é servir, é fazer da vida um serviço aos outros de maneira indistinta a todos. Essa consumação da vida no serviço aos outros, não supõe necessariamente uma morte dramática e cruenta. Pode comportar uma longa série de limites humanos, como o envelhecimento, a rotina desconhecida do dia-a-dia que torna o serviço nada espetacular, a prática das boas obras de caridade, a fidelidade ao mandamento de Jesus, as exigências do seu seguimento, a superação dos fracassos e das humilhações, a doação da própria vida por amor. O importante é que os anos sejam consumidos numa missão que traduzam concretamente o amor, o dom da vida até o fim. Pois, nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Aquele que não ama permanece na morte (1Jo 3, 14).

Cristo não veio ocupar-se com anjos, mas sim com a descendência de Abraão que somos todos nós. Libertou-nos do medo da morte, desceu à região sombria dos mortos para traçar um caminho de luz. A partir dessa experiência kenótica de Cristo, a morte torna-se passagem para uma vida mais alta. Os que morrem no Espírito de Cristo, somente conhecem a morte física, pois a morte espiritual fica anulada: os que morrem com Ele passam da morte para a vida, significa morrer com Cristo e passar com Ele da morte para a vida (Jo 5, 24). Somente a morte por amor como doação-serviço que se deu em Cristo, merece levar o nome de vida. João o atesta quando escreve a narrativa dialógica com Marta por ocasião da ‘revivação’ de seu irmão Lázaro. O evangelista fundamenta muito bem esse alto momento de amor e de doação-serviço de Jesus, que troca palavras de vida com uma mulher, Marta: Eu sou a ressurreição. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá. E quem, vive e crê em mim jamais morrerá (Jo 11, 25).

A partir do evento que se manifestou em Cristo pela sua morte-ressurreição, o processo da reflexão teológica sobre a morte física e a morte espiritual, atingem uma expressão tão forte que parece fundir um conceito no outro. Faço esta afirmação em base à progressiva consciência que o povo de Israel foi tomando ao longo de sua experiência religiosa de fé em Javé, como Senhor da vida e da morte, e em base às palavras atribuídas a Jesus, no contexto em que Jesus viveu. As citações feitas até agora, ora deixam entrever a fusão dos conceitos, ora mostram de forma mais explícita a unidade de fundo que a palavra divina guarda com relação à vida humana. Esta palavra, que vem da fonte da Vida, que é Deus, é considerada nas suas expressões do tempo cronológico do presente, das expressões que resgatam o passado e daquelas que nos colocam na transcendência do futuro.

Clemente de Alexandria (+215) aludiu à revolução da concepção que se tinha da morte de Cristo, quando afirmou: “Cristo mudou o poente em nascente”. A morte tornou-se assim uma foiceira desarmada ou, como diz santo Agostinho, uma abelha que, ferroando, perde o próprio ferrão e morre. Para chegar ao Deus da vida, vale a pena pagar o preço que a morte representa. A morte então não se apresenta mais como fim, mas como “mudança de morada”, ou como diz o poeta profético David Turoldo: “Morrer é sentir quanto é forte o abraço de Deus”.

2. A morte salvífica: mistério pascal. Em Cristo, a morte se faz mistério pascal, o mistério de Deus por excelência, um Deus que se faz homem em Jesus Cristo, assume o pecado da humanidade e se doa inteiramente por amor, reconciliando assim, toda criação com seu Criador. A expressão mistério pascal, evoca o significado central da palavra muito usada por Paulo, mystêrion, como mistério de Deus, intimamente conectado com a interpretação cristã da morte e da morte em Cristo. O mistério da cruz de Cristo que realiza o plano salvífico de Deus sobre o mundo é objeto da revelação, é mistério atual, dinâmico, no qual a pessoa de fé adere por amor com toda a sua vida, quando toma consciência de que não é o prestígio da palavra e da sabedoria humanas, que anunciam esse mistério profundo de Deus. Mas é a abertura à graça salvadora de Deus como dom que se mistura com morte e vida e vida com morte. Ao falar desse mistério, num contexto de vida-morte-vida, o apóstolo se recomenda como ministro de Deus sujeito ao processo de uma morte que o faz viver mais intensamente a vida em Cristo: pela sua perseverança nas tribulações, pelo seu amor sem fingimento, por ser tido como moribundo e, não obstante, vivo; como punido e, não obstante, livre da morte, como nada tendo, embora tudo possuindo (cf 2Cor 6, 1-10). Pois eu não quís saber outra coisa entre vós a não ser Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado (1Cor 2, 2).

Na debilidade e na humildade, todo o cristão, homem e mulher, imerso nas águas do batismo, legitimado e confirmado no memorial da eucaristia, ponto, mais alto da celebração da fé cristã, é feito ministro do Cristo crucificado e também administrador do profundo mistério de Deus, envolvido no silêncio desde os séculos eternos, mistério só agora revelado na mensagem de Jesus Cristo, que o levou a superar as fronteiras da morte com sua ressurreição, para o resgate de toda a humanidade por amor (cf. Rm 16, 25-27). O sentido da morte de Cristo, portanto, sintetiza a nossa passagem pascal da morte para a vida plena, do tempo para a eternidade como um permanente presente e de uma relação estreita com Deus e o cosmo para uma relação aberta e ilimitada com a Comunidade divina e com toda criação.

A interpretação cristã da morte física e espiritual do ser humano, passa pela tragicidade de Jesus que a viveu como um ‘cálice’ de sofrimento (Mt 26,39), mas também como a sua ‘hora’: o momento do seu supremo ato de amor, ‘hora’ da glorificação e do retorno ao Pai (Jo 13, 31). O grito angustiante do Jesus inocente, que tomou sobre si o pecado da humanidade inteira e experimentou todas as nuances da miséria humana, é seguido pela sua livre e amorosa entrega ao Pai (Lc 23,46).

Na morte de Cristo a pessoa que crê é solicitada a transformar sua morte num lugar privilegiado do encontro derradeiro com o Pai, numa decisão de amor pessoal e de decisão definitiva acerca de seu destino. Viver e morrer para o cristão, significa aceitar a passagem pascal, onde a doação a Cristo e aos irmãos não se realiza sem dificuldades e desilusões, sem passar pelas inúmeras mortes cotidianas até a morte física, etapa obrigatória criada pelo ato redentor de suprema doação de Cristo que morre por amor e ressuscita para que nós possamos ressuscitar com Ele. Só na ressurreição de Cristo a morte tem sentido: Deus, através do Filho e por amor à humanidade, se deixa tocar pela morte, para que esta humanidade viva a verdadeira e definitiva vida de amor. A esperança de imortalidade e de ressurreição que despontava no AT encontrou agora, no mistério pascal de Cristo, seu fundamento único. Agora vivemos uma vida nova, porque aquele que ressuscitou a Cristo Jesus dentre os mortos, dará a vida também aos nossos corpos mortais (Rm 8, 11).

Nota conclusiva: A reflexão não termina com este verbete. Mesmo assim, aquilo que apresentamos como contribuição teológica na perspectiva da escatologia, tem seus limites. A modo de conclusão evidenciamos três pontos que esta temática deixa para cada pessoa que se dedica com o amor do coração e da inteligência da fé cristã, à acurada investigação de toda a palavra vivida e escrita sob a ação do Espírito, como sólido ensinamento acerca do mistério da vida-morte-ressurreição de Cristo. 1)- A morte tem uma estrutura trinitária para a fé cristã: morrer só tem sentido se for um morrer com Cristo, no seu Espírito, para a comunhão com o Pai; 2)- a comunhão trinitária se estende à comunhão com todas as criaturas: morrer no seio da comunidade humana e eclesial é morrer um pouco cada dia, na esperança da transfiguração final de Novos Céus e de Nova Terra; 3)- à luz do sentido da morte a qual Cristo se submeteu, é convicção comum de que ela não separa a pessoa humana de Deus, mas a introduz na comunhão com Cristo morto e ressuscitado, que a leva à origem e à fonte de toda a vida. O mundo, a vida, a morte, as coisas presentes e futuras. Tudo é vosso; mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus (1Cor 3, 22). Toda a fadiga, sofrimento e a própria morte, têm um sentido se vividos e vistos à luz da morte de Cristo que morre por amor, imerso no mistério único da nossa fé, o mistério pascal da total e verdadeira libertação de todos os limites que fazem do morrer uma tragédia e não uma bênção. Morrer como Cristo é encontrar a água borbulhante da vida, é saciar a fome de todas as comidas, é desabrochar como a rosa em botão e é amadurecer uma vez por todas para perfumar e alegrar todo o universo.

Bibliografia básica:
BOFF, L., Ética da Vida, Letraviva, Brasília, 1999;
Vida para além da morte, Editora Vozes, Petrópolis, 1997;
BOFF, CL. Curso de Escatologia, Marianum, Roma 2001.
BOFF, Lina, “Índole escatológica da Igreja peregrinante”, in Atualidade Teológica, 13, (2003), 9-31; Id. “A fé na comunhão dos santos”, Atualidade Teológica, 16 (2004), 25-47;
CULLMANN, O. La inmortalidad del alma o la resurreccion de los cuerpos, Stvdivm ediciones, Madrid, 1970;
de la PEÑA, J. L. R., La outra dimensión. Escatología cristiana, Sal Terrae, Santander, 1986; LIBÂNIO, J. B. e BINGEMER, M.C.L. Escatologia cristã, Editora Vozes, Petrópolis, 1996;
SUSIN, L. C., Assim na terra como no Céu. Brevilóquio sobre Escatologia e Criação, Editora Vozes, Petrópolis, 1995;
TAMAYO-ACOSTA, J.-J., Para compreender la escatología cristiana, Editorial Verbo Divino, Navarra, 200; TORNOS, A., Escatología I, Comillas, Madrid, 1989;
Escatología II, 1991; VERNETTE, J., Reencarnación Resurreción. Comunicación con el más allá. Editorial CCS, Madrid, 1994; VV.AA., Concilium, janeiro (1969), todos os artigos do número monográfico.
ESQUEMA
Introdução
I. Etimologia da palavra e seu significado bíblico
1)- Significado no AT
1ª fase: morte como extinção da vida
2ª fase: morte e imortalidade
3ª fase: morte como processo evolucionista

2)- Significado no NT
II. As duas dimensões teológicas da morte
1)- A morte física
2)- A morte espiritual

III. O significado da morte de Cristo
1)- A morte por amor: doação-serviço
2)- A morte salvífica: mistério pascal

Nota conlusiva
Bibliografia básica

A CIDADANIA QUE PASSA PELA EXCLUSÃO SOCIAL. Uma perspectiva teológica

Lina Boff
Teóloga pós-doutorada pela Gregoriana de Roma
Docente da Pontifícia Universidade Católica - Rio de Janeiro

A palavra cidadania, segundo o padrão erudito, é derivada da palavra cidadão, pessoa que goza dos direitos civis e políticos de um Estado ou no desempenho de seus deveres para com este. O cidadão é o habitante da cidade.

Idéias de cidadania floresceram em diversos períodos históricos, como por exemplo, na Grécia e na Roma antigas, nos burgos da Europa Medieval, nas cidades do Renascimento. Mas a cidadania moderna, embora influenciada por essas concepções antigas, possui um caráter próprio que se expressa na cidadania formal e na cidadania substantiva.. A primeira é hoje quase universalmente definida como a condição de membro de um estado-nação. A segunda - cidadania substantiva - definida como a posse de um corpo de direitos civis, políticos e especialmente sociais, tem-se tornado cada vez mais importante.

Em ambos esses aspectos houve um processo de desenvolvimento durante o século XX e mais marcadamente a partir da Segunda Guerra Mundial, que coloca algumas questões novas para tais concepções.

A cidadania formal tornou-se uma questão importante em conseqüência da maciça imigração no pós-guerra, o que resultou uma nova política de cidadania. Ao mesmo tempo houve um crescimento da chamada “dupla-cidadania” - apesar dos esforços internacionais para reduzi-la -, na qual os imigrantes conservam a cidadania em seu país de origem e sob forma diferente na comunidade européia, onde os cidadãos dos estados-membros poderão vir a ter uma segunda cidadania na Comunidade Européia.

No caso da cidadania substantiva, seu desenvolvimento foi analisado em um estudo clássico de T. H. Marshall em 1950, que descrevia um desenrolar da extensão de direitos civis, políticos e sociais para toda a população de uma nação.

Na Europa Ocidental, depois de 1945, foi o aumento dos direitos sociais através da criação de um estado de bem-estar, o qual produziu as grandes mudanças. Estas tiveram como objetivo estabelecer princípios coletivistas, igualitários e políticos que contrabalançavam em certa medida, nas tendências não igualitárias da economia capitalista.

A situação foi diferente porém, na Europa Oriental, onde as ditaduras comunistas restringiram gravemente direitos civis e políticos, ao mesmo tempo em que proporcionavam em âmbito considerável, importantes direitos sociais. Os movimentos de oposição que finalmente provocaram a queda desses regimes, na verdade enfatizaram muito fortemente a idéia de cidadania como incorporação de direitos básicos, civis e políticos das nações, como também a concepção correlata de uma necessária independência das instituições da sociedade civil em relação ao Estado.

Uma participação desse tipo porém, depende de forma crucial do alargamento dos direitos sociais para proporcionar um nível geral suficiente de bem-estar econômico, saúde, lazer e educação, e sem dúvida também de novas formulações do que venha a ser o “bem comum”. Como esse processo influenciou nas sociedades latino-americanas?

Cidadania para uma nova democracia
Como na maioria das sociedades latino-americanas, as lutas políticas, de modo específico no Brasil de hoje, são travadas em torno a projetos alternativos de democracia. Os movimentos sociais participam profundamente dessa luta desde o começo da resistência ao regime autoritário, no início dos anos 70. Embora o papel positivo dos movimentos sociais na transição para a democracia tenha sido amplamente reconhecido pelos analistas, desde o retorno ao domínio civil em 1985, sua contribuição real e potencial para a expansão e aprofundamento da democracia, foi questionada.

Esse questionamento sempre privilegiou a dimensão institucional do processo democrático da seguinte forma: os movimentos sociais são apresentados como irrelevantes e até mesmo desestabilizadores para a institucionalização da democracia para o país. Assim sendo, as outras dimensões fundamentais do processo, valorizadas pelos historicamente excluídos da democracia representativa tradicional, são freqüentemente ignoradas.

O traço distintivo dessa concepção, que aponta para a extensão e aprofundamento da democracia, é a democratização da sociedade como um todo, incluindo portanto as práticas culturais encarnadas nas relações sociais que criam exclusão e desigualdade. Essa concepção de democracia está sendo levada adiante por meio de uma redefinição da noção de cidadania e de seu referente central, que é a noção de direitos. Enfatizar as implicações que esta nova concepção de cidadania traz para o processo de democratização e para os movimentos sociais, de lutarem pelo direito a ter direitos, produz novas visões de uma sociedade democrática. Implica também uma reivindicação radical de sua transformação. A ordem social existente é limitadora e excludente com relação aos valores e direitos dos movimentos sociais.

Para os setores excluídos da sociedade brasileira, a percepção da relevância política dos significados culturais embutidos nas práticas sociais, faz parte de sua vida cotidiana. Como caso exemplar, que se pode generalizar facilmente para toda a América Latina, pode ser este: a sociedade brasileira apresenta uma desigualdade econômica em níveis extremos de pobreza que têm sido apenas, um dos aspectos mais visíveis de uma organização desigual e hierárquica das relações sociais em seu conjunto – o que pode ser chamado de autoritarismo social. Essa concepção predomina numa nação que se diz democrática.

Diferença de classe, raça, e gênero constituem a base principal de uma classificação social que impregnou historicamente a cultura brasileira. Sob a aparente cordialidade da sociedade brasileira - bem descrita por Sérgio Buarque de Holanda, sociólogo da nossa cultura -, a noção de lugares sociais constitui um código estrito, muito visível e ubíquo –omnipresente -, nas ruas e nas casas, no Estado e na sociedade, o qual reproduz a desigualdade das relações sociais em todos os níveis, subjazendo às práticas sociais e estruturando uma cultura autoritária.

Pouco ou nada se reconhece o fato de que, os movimentos populares urbanos alcançaram essa compreensão da umbricação entre cultura e política. Ao perceberem de que não tinham que lutar apenas por seus direitos sociais – moradia, educação, saúde, lazer –, mas pelo próprio direito a ter direitos, tomaram consciência de que ser pobre não significa apenas privação econômica e material, mas também ser submetido a regras culturais que implicam numa completa falta de reconhecimento das pessoas pobres como sujeitos, isto é, como portadores de direitos, como cidadãos.

Um instrumento fundamental dos movimentos sociais em sua luta recente pela democratização, foi a apropriação da nova noção de cidadania, que torna operacional sua visão ampliada de democracia. As origens da atual noção redefinida de uma nova cidadania podem ser parcialmente encontradas na experiência concreta dos movimentos sociais no final da década de 70 e dos anos 80.

Para os movimentos populares urbanos, a percepção das carências sociais como direitos, representou um passo crucial e um ponto de inflexão em sua luta. Para outros movimentos sociais, como o ecológico e os conduzidos por mulheres, negros e outros, a luta pelo direito à igualdade e à diferença, encontrou claro apoio na noção redefinida de cidadania, que é a organização social pelo direito a ter direitos. Uma parte significativa dessa experiência comum foi constituída pela elaboração de novas identidades como sujeitos – o titular de direitos civis, religiosos, culturais -, como portadores de direitos, como cidadãos iguais.

Estudiosos e estudiosas do assunto sustentam que a multiplicação das arenas públicas por uma redefinição da noção de cidadania, liderada pelos que têm sido relegados ao estatuto de não-cidadãos na América Latina, deve ser vista como parte integrante da expansão e aprofundamento de uma cidadania democrática e da própria democracia como sistema constitucional.

A partir dos anos 90, o uso do termo cidadania se difundiu cada vez mais na sociedade brasileira. Enquanto a noção redefinida continuou subjacente às lutas populares e às práticas políticas de partidos políticos, das Organizações Não Governamentais (ONGs) e de todos os Movimentos congregados na Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (ABONGs). O novo conceito de cidadania esteve também por trás de campanhas de solidariedade voltadas para a mobilização da classe média, tais como a Ação da Cidadania contra a Fome liderada por Herbert de Souza - o Betinho – e outras Associações como a CIVES - Associação Brasileira de Empresários pela Cidadania.

Uma nova noção de cidadania

A disputa simbólica – conjunto de símbolos que representam a realidade em questão -, em torno ao significado da nova concepção de cidadania, prova sua relevância política e a importância atribuída pelos diferentes contestadores das redefinições apresentadas pelos movimentos sociais. Mas uma tal disputa requer também um esforço para clarificar a noção referida aqui como “nova cidadania”.

O primeiro elemento distintivo nessa noção, provém da própria concepção de democracia, na qual a exclusão sócio-cultural de gênero, racial e econômica relegou aos subalternos, o estatuto de não-cidadãos. Precisa mudar o conceito de democracia que se tem para compreender a nova concepção de cidadania. Nesse sentido a nova cidadania identifica construções culturais de autoridade social como alvos políticos fundamentais da democratização. Acredita-se que a redefinição da noção de cidadania, formulada pelos movimentos sociais, expressa não somente uma estratégia política, mas também uma política cultural .

Ao afirmar a noção de cidadania como uma estratégia política, significa enfatizar seu caráter de construção histórica, que expressa interesses e práticas concretas, não definidas previamente, pois ela é um processo. A nova cidadania então, assume uma redefinição da idéia de direitos, cujo ponto de partida é a concepção de um direito a ter direitos. Ela inclui a criação de novos direitos que surgem de lutas específicas e de suas práticas concretas. Essa redefinição inclui não somente o direito à igualdade, como também o direito à diferença, que especifica, aprofunda e amplia o direito à igualdade.

O segundo ponto que implica o direito a ter direitos, é o de que a nova cidadania, ao contrário de outras concepções, não está vinculada a uma estratégia das classes dominantes e do Estado que incorporam os excluídos com o objetivo de integrá-los ao capitalismo neoliberal. A nova cidadania requer a constituição de sujeitos sociais ativos, agentes políticos; são esses que vão definir o que consideram ser seus direitos e vão lutar para que sejam reconhecidos enquanto tais. Nesse sentido, é uma estratégia dos não-cidadãos, dos excluídos a criarem uma nova cidadania, uma cidadania que vem “de baixo”, e não uma cidadania que vem do Estado e das velhas oligraquias..

O terceiro ponto é a idéia de que a nova cidadania transcende uma referência central do conceito liberal. A nova cidadania reivindica acesso, inclusão, participação e pertencimento a um sistema político que vai se construindo de modo progressivo. O que está em jogo de fato, é inventar uma nova sociedade. O reconhecimento dos direitos de cidadania, tal como é definida por aqueles que são excluídos dela no Brasil de hoje, aponta para transformações significativas em nossa sociedade e em sua estrutura de relações de poder. Experiências recentes inspiradas pela nova noção de cidadania, ajudam a visualizar possibilidades futuras. A nova cidadania é um projeto para uma nova sociabilidade - maneiras de se relacionar de quem vive em sociedade.

A ênfase no processo de constituição de sujeitos – o titular de direitos - em “tornar-se cidadão”, na difusão de uma cultura de direitos, coloca novamente a questão da cultura democrática, que é a ampliação do alcance da nova cidadania: a nova cidadania é um projeto para uma nova sociabilidade. Não somente a incorporação ao sistema político em sentido estrito, mas um formato mais igualitário de relações sociais em todos os níveis, inclusive novas regras para viver em sociedade. Isso tudo exige o reconhecimento do outro como sujeito portador de interesses válidos e de direitos legítimos, o direito a ter direitos.

Essa concepção ampliada de cidadania implica, em contraste com a visão pós-moderna liberal, que a cidadania não está mais confinada dentro dos limites das relações com o Estado, mas deve ser estabelecida no interior da própria sociedade. O processo de construção de cidadania como afirmação e reconhecimento de direitos é, especialmente na sociedade brasileira, um processo de transformação de práticas arraigadas na sociedade como um todo. Essa estratégia política implica uma reforma moral e intelectual que consiste num processo de aprendizagem social, de construção de novos tipos de relação social, que requer obviamente a construção de cidadãos como sujeitos ativos.

A exigência de um olhar ético

A atual situação aqui apresentada é um desafio radical não só a sociedade que está aí, mas ao Estado vigente, sobretudo às igrejas cristãs. Mais especificamente, os desafios para a América Latina se tornaram ainda mais complexos, em que, nem sempre o povo empobrecido e não considerado cidadão, tem contado com uma presença decidida das Igrejas a seu lado. A dignidade humana e a Constituição do nosso país são apresentadas nestas palavras: “Pessoas procurando restos nas latas de lixo, filas monstruosas à espera do atendimento nos hospitais, mendigos e crianças dormindo nas ruas”.

Estas são cenas comuns em várias capitais e até mesmo em tantas cidades do interior. É a vergonhosa demonstração da falta de respeito com a dignidade das pessoas. A Constituição da República chamada de Constituição cidadã, diz no artigo 6º. São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados na forma dessa Constituição.

A crise mais ampla da civilização moderna, que tem a ver com o fim de determinada percepção do tempo, do sujeito, das totalidades omniexplicativas e com o triunfo da própria racionalidade instrumental técnico-científica, tem sido estudada e abordada de diferentes ângulos e por muitos estudiosos no assunto. Interessa-nos aqui sublinhar algumas conseqüências político-teológicas deste processo e o desafio que representam no contexto brasileiro para as Igrejas e instituições religiosas e cristãs.

Num momento em que corremos o risco de cataclismos sociais e ecológicos, faz-se urgente dar um novo sentido fundamental para a vida humano-social. Isso implica um reencontro do ser humano consigo mesmo e com uma significação omnienglobante.

Em primeiro lugar, importa refocalizar a própria compreensão do ser humano. Ele deve ser entendido como um nó de relações voltado em todas as direções. Ele é natural e histórico, individual e social, racional e intuitivo e também emocional. A democracia supõe a superação da compreensão antropocêntrica e individualista do ser humano que marca toda a antropologia da modernidade. Como ser de relações, ele somente se realiza quando for sujeito de sua prática, quando acolher a alteridade do outro, que também é sujeito, e juntos se fizerem atores de uma história coletiva de onde se gesta e nasce a nova cidadania.

Em segundo lugar, é fundamental rever a concepção de sociedade. Ela não é, nem a soma de indivíduos unidos ao redor da lei, nem uma massa comandada pelo Estado. Mas é o conjunto articulado de sujeitos, como titulares de direitos, como cidadãos portanto, constituindo uma subjetividade coletiva que se compromete na construção de um bem comum para os humanos e para todos os seres da natureza.

Em terceiro lugar, a própria noção de democracia deve ser revisitada. Não basta a democracia representativa como temos hoje, ela deve ser social, participativa e capaz de deixar espaço e meios para a construção da cidadania que conquistou o direito a ter direitos. Ela se funda na maior participação de todos, a partir de baixo, que cria mais e mais níveis de igualdade, que tem como valor central a solidariedade e que se abre para a comunicação intersubjetiva dos cidadãos, com suas visões de mundo, tradições, valores e símbolos.

Torna-se urgente e precisa refundar a economia política. Em seu modo originário, ela é a gestão da carência e não a técnica do crescimento ilimitado na produção de bens e serviços. O que importa hoje, é uma economia do suficiente para todos; portanto, como meio para a vida dos seres humanos e da natureza, e não mais como um fim em si mesmo.

Impõe-se portanto, um novo paradigma de desenvolvimento. Deve-se reconhecer a unidade e a articulação orgânica das dimensões econômica, política, social e ambiental da história humana. O objetivo central do desenvolvimento e a referência permanente, será sempre o ser humano, individual e social. A atividade econômica é instrumento para esse fim.

Em último lugar, é imprescindível uma transformação cultural e subjetiva. Não bastam as mudanças institucionais. Lá onde vive o ser humano, devem viver também os ideais humanos e democráticos como valores universais a serem vividos na família, na escola, nas associações, nas igrejas.

A cidadania proposta é um desafio gigantesco, porque tem em vista a pessoa humana no seu todo, redefinindo sua participação no processo social e político, seu espaço de direito a ter direitos para a construção da comunidade humana. A redefinição da noção de cidadania formulada pelos movimentos sociais, expressa, não somente uma estratégia política, mas também uma política cultural.

Um olhar teológico desafiante

Neste processo acelerado de opacidade dos processos culturais umbricados com a democracia e a própria fé cristã e religiosa, a primeira dimensão a ser afetada nas pessoas é a sua capacidade de perceber a realidade. A tradição profética judaica apresenta como o povo era alertado sobre esse tipo de opacidade criada pelos sistemas políticos e econômicos daquele tempo.

Trata-se aqui de resgatar o espírito com que os profetas falavam ao povo da urgência de se mudar a situação em que este se encontrava e viver segundo a sua originária criação, a condição de pessoas livres e sujeitos da própria construção humana e transcendente.

Lucas quando elabora seu tratado de teologia a partir de sua fé universal que inclui todos os componentes geográficos e históricos de sua fonte, retoma o profeta Isaías para apresentar o Messias com seu programa missionário. Ele não cria um programa novo, com novas palavras e versões, mas retoma a tradição mais antiga e originária da tradição religiosa de suas comunidades de fé e dá-lhe uma nova veste. Adapta as palavras do profeta que Lucas retoma e as aplica a sua realidade: O espírito do Senhor Javé está sobre mim, porque Javé me ungiu; enviou-me a anunciar a boa nova aos pobres, a curar os quebrantados de coração e proclamar a liberdade aos cativos, a libertação aos que estão presos... (Is 61, 1-3; cf. Lc 4, 18-19).

Lucas mostra Jesus na sinagoga de sua terra natal, Nazaré, partindo desse texto para explicar sua própria missão que responde à expectativa do povo de Israel. Com estas palavras Jesus torna realidade histórica aquilo que era uma utopia do povo, um anúncio de tantos profetas. O destaque entre o que diz o profeta e o que proclama Jesus, é assinalada por um advérbio, “hoje”. Este “hoje” de Jesus abre o tempo da realização de um projeto que habitava a vida e a história de um povo e se torna uma experiência paradigmática até os nossos dias.

A prática e a realização desse programa é mostrado ainda por Lucas, quando João Batista envia discípulos seus a verificar se Jesus era realmente o Messias esperado pelo povo. Perguntado, és aquele que há de vir ou devemos esperar outro? (cf. Lc 7,18-23). Jesus não responde, mas age, faz gestos que falam de vida e clamam por justiça e inclusão. O evangelista retoma ainda Isaías e o adapta às comunidades de fé. Reacende-se a esperança: Então o coxo saltará como o cervo e a língua do mudo cantará canções alegres porque a água jorrará do deserto e rios da terra seca (cf. Is 35, 4.5-7; cf. Lc 7, 18-23).

A prática de Jesus tem uma significação vertebral para a opacidade social, cultural, política e religiosa de tantos povos. É um tempo que marca uma nova ordem e aqui está o grande desafio para todos, sobretudo para as igrejas e instituições cristãs e não cristãs, que se crêem formadoras de consciências e anunciadoras de uma cidade inclusiva e integrada.

Concluindo para abrir mais

O direito a ter direitos continua, todavia hoje, a ser uma utopia por realizar politicamente, mas um grande espaço de atuação para um vasto Continente chamado a testemunhar a fé cristã pela sua esperança e pela solidariedade que o legitima como povo latino-americano do sul e caribenho. E para finalizar esta contribuição reflexiva, levanto uma questão permanente: Até quando a fé continua sendo maior e mais ampla, diante das interpelações da razão crítica, que funciona como filtro da fé, a qual, nem sempre responde aos desafios da realidade.

(Palestra proferida na X Mostra-PUC-Rio, sobre Valores, e na Universidade de Chicago, aberta ai público, pela cadeira de Ética Cristã, agosto e outubro de 2006).

Referências bibliográficas
ÁVILA, Fernando Bastos de “Cidadão”, in Pequena Enciclopédia de Doutrina Social da Igreja, Loyola, 1991.
BOFF, Leonardo, Ética da Vida, LetraViva, 1999.
BOTTOMORE, Tom “Cidadania”, in Dicionário do Pensamento Social do século XX, Jorge Zahar Editor, p. 73; 88; 260s; 650-652.
DAGNINO, Evelina “Cultura, cidadania e democracia. A transformação dos discursos e práticas na esquerda latino-americana”, Sonia E. Alvarez, Arturo Escobar (orgs.), Editora UFMG 2000.
HUNTINGTON, Samuel P., o Choque de Civilizações e a recomposição da Ordem Mundial, Objetiva, 1997.
THERBORN, Göran, Sexo e Poder, A Família no Mundo 1900-2000, Contexto, 2006.
VV.AA., Sociedade Global, Cultura e Religião, Vozes, 1998.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

ANIMAÇÃO BÍBLICA DA PASTORAL

Entrevista com Irmão Nery fsc

Iniciamos no mês passado uma série de artigos preparatórios ao
PRIMEIRO CONGRESSO DE ANIMAÇÃO BÍBLICA DA PASTORAL,
que acontecerá em Goiânia, GO, nos dias 8 a 12 de outubro de 2011. Irmão Nery fsc, Presidente de SCALA (Sociedade de Catequetas Latinoamericanos)e membro do GRECAT (Grupo de Reflexão Catequética da CNBB), concede esta entrevista à Maria Cecília Rover, Assessora Nacional da Comissão Episcopal Pastoral para a Animação Bíblico Catequética.

Maria Cecília: O Documento de Aparecida fala em “Animação Bíblica da Pastoral”
(ABP). Há alguma diferença com relação à Pastoral Bíblica?

Irmão Nery: Há, sim. Vamos por partes. A “Pastoral Bíblica” predominou do Concílio
Vaticano II (1962-1965) para cá, fez e faz um enorme bem aos fiéis e à Igreja. Sua
função principal é cumprir o que pede o Concílio através da Constituição Dogmática
sobre a Palavra de Deus, a Dei Verbum: que todos os fiéis tenham acesso as Sagradas
Escrituras. E, nesse ponto, o Brasil foi privilegiado com 17 traduções da Bíblia, várias
instituições para ajudar os católicos a terem uma boa introdução à Bíblia. Entre elas se
destaca o Centro de Estudos Bíblicos (CEBI). Mas há numerosas outras iniciativas de
oração e vivência da Palavra de Deus, como os Círculos Bíblicos e a Leitura Orante da
Palavra.

Maria Cecília: E a Animação Bíblica da Pastoral? Em que consiste?

Irmão Nery: Os Bispos em Aparecida solicitam um passo a mais em relação à Pastoral
Bíblica. Não basta que todos os fiéis tenham acesso às Escrituras e tenham uma boa
iniciação à Bíblia. É preciso que tudo na Igreja parta da Palavra de Deus, nela se
inspire e se fundamente e dela se alimente, desde a vida pessoal de cada fiel até a Igreja
como um todo. Que a Palavra de Deus perpasse, portanto, todas as pastorais,
congregações religiosas, movimentos, seminários, lideranças da Igreja (bispos,
presbíteros, ministros, coordenadores...). Que a Palavra de Deus passe a ser a alma que
dinamize profunda e abrangentemente a Igreja.

Maria Cecília: Você poderia destacar os números onde, no Documento de Aparecida,
fala em Animação Bíblica da Pastoral, neste sentido a que o senhor se refere?

Irmão Nery: Primeiramente há, no nº 99a um reconhecimento que esta Animação
Bíblica da Pastoral já existe em algumas Igrejas na América Latina e no Caribe:
“Devido à Animação Bíblica da Pastoral, aumenta o conhecimento da Palavra de Deus e
do amor por ela”. Depois, os bispos dão, no nº 248 do Documento, preciosas
orientações. “Os discípulos de Jesus desejam (...) que os textos bíblicos (...) sejam alma
da própria evangelização e do anúncio de Jesus a todos. Por isso, a importância de uma
“pastoral bíblica” entendida como animação bíblica da pastoral, que seja escola de
interpretação ou conhecimento da Palavra, de comunhão com Jesus ou oração com a
Palavra, e de evangelização inculturada e proclamação da Palavra. Isso exige, da parte
dos bispos, presbíteros, diáconos e ministros leigos da Palavra, uma aproximação à
Sagrada Escritura que não seja só intelectual, mas com coração “faminto de ouvir a
Palavra de Deus” (Am 8, 11).

Maria Cecília: Que riqueza de orientações e que impulso, não é mesmo?

Irmão Nery: Sem dúvida. E gostaria de destacar alguns elementos nesse texto de
Aparecida: 1) A Palavra de Deus como “alma da própria evangelização e do anúncio de
Jesus”; 2) “Pastoral Bíblica” entendida como “Animação Bíblica da Pastoral” (ABP);
3) três ingredientes simultâneos e complementares para a animação: a) conhecimento e
interpretação da Palavra de Deus; b) A Palavra de Deus como melhor caminho de
comunhão com o Senhor; c) A palavra de Deus como base principal da evangelização
inculturada; 4) a necessidade de converter as lideranças da Igreja (bispos, presbíteros,
diáconos, ministros leigos..) para um novo modo de ler, interpretar e pregar a Palavra de
Deus, a fim de que esse processo de animação bíblica da pastoral se torne uma
realidade.

Maria Cecília: A Animação Bíblica da Pastoral vai ajudar no processo de conversão
dos próprios católicos?

Irmão Nery. Sem dúvida. Aparecida insiste na necessidade de um processo novo para
formar discípulos missionários de Jesus Cristo, para evangelizar verdadeiramente a
sociedade: é a Iniciação à Vida Cristã de inspiração catecumenal e a conversão da
pastoral. Ora, dentro da pastoral orgânica e segundo a eclesiologia de comunhão e
participação, a ABP tem por objetivo maior revigorar com a Palavra de Deus escrita,
proclamada, meditada e vivida a cada fiel para ser um dinâmico discípulo missionário e,
também, a toda instância pastoral de modo a fazer com que tudo na Igreja favoreça e
aprofunde o “encontro pessoal com Jesus Cristo vivo”, caminho para “um autêntico
processo de conversão, comunhão e solidariedade” (cf. João Paulo II, Ecclesia in
America, 3, 8).

Maria Cecília: Mas já há Animação Bíblica da Pastoral no Brasil?

Irmão Nery: Sim. Alguns passos já foram dados e outros estão sendo propostos. Há
publicações que ajudam a esclarecer a diferença e complementação entre Pastoral
Bíblica e Animação Bíblica da Pastoral. Há seminários e encontros com esta finalidade.
Há, inclusive, dioceses e regiões pastorais que formaram a Comissão de Animação
Bíblica da Pastoral. O Primeiro Congresso Brasileiro de Animação Bíblica da Pastoral,
com uns 500 participantes, vindos dos 17 regionais de CNBB, em outubro de 2011 será
um momento de síntese avaliativa da caminhada e de um especial impulso à ABP. E,
sem dúvida, toda a mobilização sobre a ABP será uma preciosa contribuição para a
renovação da Igreja sob o impulso de Aparecida e da Missão Continental.
Fonte: www.cnbb.org.br

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O NATAL DE MARIA DE NAZARÉ E A MARIA DO NATAL DE HOJE

O NATAL DE MARIA DE NAZARÉ
E A MARIA DO NATAL DE HOJE
Profª Drª Lina Boff
O Natal é, seguramente, a festa mais sentida e universal do Cristianismo. É uma festa celebrada até pelas pessoas que não acreditam no Deus dos cristãos. Por isso, ela é mais que uma festa celebrada pelo Cristianismo, é um espírito que envolve o coração, os sentimentos e veste de luz toda a criação que Deus plasmou e enfeitou com tanto carinho. Esse espírito de irmandade e fraternidade universal, faz com que as famílias se encontrem, troquem presentes, desejem Feliz Natal!, enviem cartões de Boas Festas, celebrem a Ceia de Natal que une e abraça a todos e a todas, na alegria, na luz e num ambiente em que o sagrado se faz presença e toma rosto na face de cada pessoa que reluz naquela noite.
Diante deste quadro tão bonito, como teria celebrado os aniversários de seu filho Jesus, Maria de Nazaré, aniversário que hoje nós chamamos de Natal? Muitas perguntas a respeito teríamos a fazer. Mas vamos recorrer um pouco a trajetória que Maria fez quando celebrava, junto com sua comunidade, seu marido José e seu filho Jesus, a fé que nutria pelo Deus da Vida. O que Maria rezava e celebrava quando ia ao Templo? Vamos ver algumas de suas orações proféticas e sálmicas que ela, com sua comunidade de fé judaica, fazia com Esperança e Fé.
Do profeta Isaías, provavelmente, Maria exultava de Esperança e Fé sempre que proclamava estas profecias: Povo de Israel, sabei que o Senhor mesmo vos dará um Sinal: Eis que a jovem conceberá e dará à luz um filho, que será chamado Emanuel, isto é, Deus conosco (Is 7,14). O povo que andava nas trevas viu uma grande luz, uma luz raiou para os que habitavam uma terra sombria (Is 9,1). Ó Jerusalém, põe-te em pé, resplandeça, porque a tua luz é chegada, a glória de Javé resplandece sobre ti. A ti virão os tesouros das nações e montadas em camelos trarão ouro e incenso para te presentearem (Is 60,5s). Finalmente, Miquéias, o profeta do Messias da descendência davídica, fala de maneira clara: E tu, Belém de Éfrata, embora a menor de todas as cidades de Judá, de ti sairá o Messias Libertador que o povo de Israel espera há tanto tempo. Ele trará a paz e a libertação para todos os povos (Mq 5,1s).
Dos Salmos, deduzimos que Maria de Nazaré tenha dado a estes, a preferência que o seu Deus sempre deu ao povo de Israel. Por isso, Maria proclama os salmos com Esperança e Fé. Ó Jerusalém, a ti vem o teu rei que liberta o indigente que clama e o pobre que não tem protetor. Ele os redime da astúcia e da violência, por isso, todos os reis da terra, se prostrarão diante dele (Sl 72,12s). Este é o dia que Javé fez para nós, exultemos e alegremo-nos nele.pois, o Salvador chegou entre nós (Sl 118,24).
Nesta Esperança Maria celebrava todas as festas de sua família biológica e de sua família de fé judaica. Hoje, Maria celebra esta festa de Natal, com mais de dois mil anos de distância, junto com seus romeiros e romeiras. Todos sabemos que Jesus se fez homem permanecendo Deus ao mesmo tempo. Por ser o Deus das pessoas mais necessitadas e humildes deste mundo, Ele quis entrar no nosso mundo escondido, participando do destino daquele que bate à porta, à noite, no frio, como fez José com sua mulher grávida, procurando lugar para que ela desse à luz com dignidade. Mas não encontrou lugar, a não ser numa pobre estrebaria vizinha. Lá havia palha, uma manjedoura, um boi e um burrinho que com seu bafo esquentaram o corpinho frágil do recém-nascido.
Assim Deus quis entrar em nosso mundo, silenciosamente, entrou pela porta dos fundos. Os grandes que habitavam em palácios das cidades de Jerusalém e de Roma, nada ficaram sabendo disso tudo. O Natal de Maria e de José, foi celebrado, não no meio de gente grande, mas no meio de pessoas simples como os pastores, e pobres como Maria e José, que batendo de porta em porta, ouviram estas duras palavras: “Não tem lugar para vocês”!
O que aprender deste Natal? Deus, quando quer se manifestar, não usa o espetáculo grandioso dos meios de comunicação, mas usa o silêncio simples das pequenas coisas da vida cotidiana. Foi assim que Ele veio e continua vindo para todas as pessoas do mundo inteiro. Mas, de maneira especial Ele vem para os pobres e simples de coração, porque assim Ele viveu no meio de nós. Nascendo entre os pobres, está sempre perto deles e a partir deles pode alcançar também os que têm riquezas materiais e não repartem com quem não tem. Dessa forma, ninguém fica de fora de sua vinda no Natal e ninguém é excluído de ser tocado pela presença de Deus que vem numa criança frágil e pequena como nós nascemos.
A reza que Maria fazia na Esperança para que Deus viesse libertar seu povo, se fez realidade através dela, no dia em que Jesus nasceu em Belém. Este mesmo acontecimento continua se atualizando em cada Natal que celebramos todos os anos. Mas sobretudo, vendo no Menino recém-nascido, aquele que pregou o Reino de paz e de bondade, e que por esse motivo morreu na cruz, mas ressuscitou para que todos nós tivéssemos olhos para ver a realidade com o coração. Assim podemos desfrutar da Graça Encarnada que nos vem no Natal.

MARIA NA CULTURA LATINO-AMERICANA E CARIBENHA

Maria na cultura latino-americana e caribenha
Significado e fé cristã
Lina Boff
Professora da PUC-Rio
Pós-doutorada pela Gregoriana de Roma

Introduzindo o assunto:
Antes de tudo queremos esclarecer dois conceitos básicos da nossa contribuição a este evento de estudo e reflexão: quando se fala da Comunidade divina fala-se da Trindade não como doutrina, mas como realidade, isto é, a Comunidade das Três Pessoas divinas está sempre presentes nos processos históricos e portanto ela é um fato; não depende das definições dogmáticas de várias tendências que se estabeleceram durante séculos; o Pai o Filho e Espírito Santo estiveram sempre presentes na história da humanidade, comunicando seu amor, inserindo o devir humano dentro da comunhão divina das três Pessoas. O segundo conceito que deve estar claro no nosso modo de pensar e de articular com a vida prática esta reflexão, é o de considerar a Maria histórica do NT, como a mesma Maria simbólica do universo cultural religioso do marianismo popular que povoa a cabeça dos povos do extenso Continente do Sul do Mundo.

1)- Quem é a Maria histórica

É a Maria de Gálatas 4,4 nascido de mulher, que é a Maria da narrativa dos quatro Evangelhos. É a mulher que age e re-age diante dos fatos históricos da nossa salvação. O primeiro deles é o da Encarnação libertadora. Este fato é o começo da nossa história salvífica com a presença humana de Jesus como ser histórico e como Pessoa da Comunidade trinitária, embora vivendo sua divindade ainda não revelada. Maria re-age a este fato pedindo explicação de como podia ser mãe sem ter tido relações conjugais com homem algum (cf. Lc 1,34); e age à explicação da teofania com quem estava falando, ao pronunciar seu SIM depois da explicação recebida e logo que vislumbrou o mistério de fé da revelação do Deus em quem acreditava e confiava plenamente como pessoa humana, age da mesma forma que cada um@ de nós poderia agir. Com a fé e o FIAT desta mulher do povo de Nazaré, tivemos a graciosa libertação de acabar com a distância que nos separava do Deus Pai e Espírito Santo, através de Jesus, o Filho.

O segundo fato histórico da nossa salvação é o do avanço na fé (cf. LG 58) que Maria realizou na sua vida terrena, sobretudo durante a vida pública de Jesus em que Ele pregava o Reino, na preparação da descida do Espírito Santo em Pentecostes que se plenifica na sua gloriosa assunção ao céu em corpo e alma (cf. LG 69). Nesta caminhada da fé terrena Maria re-age aos fatos salvíficos, auscultando a pregação do filho e guardando em seu coração, tudo aquilo que não compreendia; e age tomando as iniciativas que lhe eram inspiradas pelo Espírito que a continha e era contida por Ele.

Citamos algumas de tais iniciativas da Maria histórica, a Maria dos Evangelhos: visita Isabel e proclama o Cântico revolucionário do Magníficat tornando pública sua opção preferencial pelas massas pobres e excluídas (cf. Lc 1,53); chama a atenção do filho que se deixa ficar no templo discutindo com os teólogos da época sem dar nenhuma satisfação aos pais (cf. 2,48) ; percebendo a falta de vinho no casamento de Caná, comunica ao filho o fato e entra em contato relacional com os ajudantes da festa de Caná para saber como podia ajudá-los (cf. Jo 2,3.5); testemunha sua fidelidade ao Projeto salvífico da Comunidade trinitária ao pé da cruz de Jesus junto com suas companheiras de seguimento e o único homem que era João (cf. Jo 19, 25-27). Lá estava Maria de pé e não caída e chorosa; com sua presença age no retiro de preparação à vinda do Espírito Santo em Pentecostes (cf. At 1,14); e com sua adesão totalíssima à vontade da Comunidade divina, merece entrar na visão beatífica em corpo e alma, como sinal de esperança segura para o fim da nossa caminha terrena (cf. LG 68).

2)- As ‘Marias’ históricas de hoje

São aquelas que lutam do lado do povo e não se conformam com a situação que estamos vivendo. Nesse sentido elas se inspiram seja na Maria dos Evangelhos que na Maria do ícone de Atos. A mulher de hoje, arrastada pela atitude de Maria e inspirada na sua fé e coragem de aderir plenamente ao chamado do Pai e seu Projeto, acredita num modo novo de viver seu batismo, de testemunhar sua fé e de organizar a comunidade eclesial. A presença de Maria e as outras mulheres no evento Pentecostes criou e continua criando a nova comunidade do Espírito doado pelo Ressuscitado. Ora, nesta comunidade a mulher se identifica com a graça de ser chamada à condição original de reproduzir em sua vida e em seu corpo o gesto eucarístico da Comunidade divina pela Pessoa de Jesus Cristo. Alimentar seu povo com sua própria carne e sangue, foi a modalidade mais radical e intensa que a Comunidade divina encontrou para exprimir sua doação plena e deixar presente seu infinito amor no meio do povo que ama até à morte e ressurreição.

As ‘Marias’ de hoje realizam este gesto seja no ato da amamentação, no ato do martírio moral, psicológico, espiritual, como no martírio que exige versar seu sangue e água salvadores como se deu em Jesus Cristo. Parece-nos que aí está um veio promissor para a reflexão sobre o mistério abissal da Trindade como realidade histórica e como mistério de fé que ultrapassa a própria história. O mistério da presença real de Jesus Cristo no meio de seu povo que louva o Deus Trino da Nova Criação, proclama a revelação da Comunidade de Amor no seu modo de ser feminina e no seu modo de ser masculina, ao entrar em relação apaixonada e amorosa de coração-a-coração com seu povo.

3)- Significado para a nossa cultura: a Maria simbólica

Somos uma república mestiça e étnica culturalmente. Não somos europeus nem latino-americanos. A síntese de tantas antíteses é o produto singular e original que é o Brasil atual. Somos tupinizados, africanizados, orientalizados e ocidentalizados. Não fomos descobertos em 1500, mas continuamos encobertos e vivendo de um caldo de culturas distintas e ricas. Mas a nossa identidade está por ser construída ainda, sobretudo política e sócio-cultural. O Papa diz que temos uma identidade religiosa e cristã, mas nós precisamos caminhar e nos conscientizar muito ainda, muito mais do que tudo aquilo que o Papa disse a nosso respeito e a nosso favor.

Este é o quadro de fundo que nos leva a falar do marianismo popular que nasce da Maria histórica sim, mas que no universo cultural dos nossos povos ela passa a ser a Maria simbólica na cabeça e na prática de todos. As grandes divindades femininas ainda parecem povoar o universo simbólico e religioso do povo que vive numa cultura tão diversificada. A percepção da figura de Maria como símbolo e também como epifania simbólica, situa o povo para além de si mesmo e o leva não raras vezes, a viver e a desejar um mundo diferente do que vive. Esta simbólica é um dos fatores mais poderosos na inserção da fé popular da realidade definitiva em que acredita.

A nosso juízo, esta experiência devocional simbólica acrescenta à fé mariana popular, uma dimensão de relação com Maria extra-racional e imaginativa ou até mesmo fantasiosa, mas prenhe de fé e de esperança. Esta relação se dá entre a pessoa, a comunidade e o mundo cósmico. Diante de tal fato, a reflexão nos leva a criar uma nova antropologia continental, a qual se inscreva dentro de um reconhecimento capaz de criar no povo a consciência de que é ele que deve construir a sua história, criar sua cultura e construir sua identidade cristã e religiosa. A espécie humana tratada como não-pessoa, dá lugar à virada antropológica humana, inclusiva e libertadora pois, não há mais lugar para a submissão e o domínio. Faltando esta intuição de cada ser humano na interpretação dos elementos simbólicos vistos à luz da fé, nada é percebido em Maria como epifania simbólica.

4)- A mulher de hoje e sua nova consciência

Diante da proposta de uma antropologia humana, inclusiva e libertadora exige-se uma nova consciência antropológica. Na descoberta de muitos arquétipos ligados ao Feminino, a mulher de hoje costura os pedaços de vida sacrificada da humanidade inteira para resgatar o retorno da Grande Mãe e da Grande ‘deusa’, que traz consigo a misericórdia do nosso Deus, a ternura de suas entranhas divinas e a leveza de seu sopro perfumado do Espírito. A reflexão teológica feita na ótica da mulher cristã e católica em diálogo, nada reivindica quando sente o chamado que o Senhor lhe faz. O Senhor incluíu todas as mulheres na história da salvação, assim como o fez com Tamar (Gn 38, 14-18), com Raab (Js2,1), com a mulher de Urias (2Sm 11, 1-5), com Rute (3, 7-15), e de um modo consentâneo à própria missão, o faz com Maria de Nazaré ( Mt 1,16), independente da linhagem de cada uma. Não afirmamos, mas argumentamos: temos consciência de que o elemento feminino está sobre o altar.

Dois fatos mostram o avanço do significado de Maria na nossa cultura. São eles: a figura da Maria histórica em muitos e variados ambientes populares; estes se encontram já a caminho de uma conscientização e abertos a uma reflexão mariológica que se expressa numa prática pastoral, articulada no dia-a-dia de cada comunidade de fé. Este processo tende sempre mais colocar Maria como mulher companheira de caminhada rumo ao Pai, mulher do povo que constrói o Reino com ele e mulher lutadora pela mudança de condições de morte em condições de vida digna e agradável a Deus.

O segundo fato é referente ao avanço de toda a simbólica mariológica alimentada pela grande maioria do nosso povo simples e empobrecido, simbólica que se manifesta no culto de caráter devocional; este passa gradativamente a se manifestar no universo religioso de cada comunidade através de cantos, celebrações, orações e até mesmo nas alegorias representativas do carnaval brasileiro. Tudo isso é elemento formador de uma consciência crítica que o povo tem da Virgem que peregrina com ele na opressão, mas um povo cheio de fé e grávido de esperança por dias melhores.

Se há muito que criticar da figura simbólica de Maria no universo cultural e religioso dos nossos povos, pode-se afirmar também de que esta Maria tem muito a ver com o seguimento de Jesus Cristo. Os nossos povos encontram em Maria a figura feminina que os precede no caminho de Jesus Cristo e n’Ela encontram o sentido da própria luta em favor da vida com abundância. A comum-união da Maria histórica como Maria simbólica ou da Maria simbólica como Maria histórica, torna-se evento de fé autêntica quando o povo vive a experiência do Pai como o Deus sumamente benigno e sábio, o Filho como o Enviado do Pai e o Espírito Santo como o plasmador da pessoa humana. (cf. LG, 52.56). Excluir Maria desse processo ou ofuscar sua participação ativa que se faz mistério para a nossa limitada compreensão, é ignorar a interrelação ‘ad intra’ e ‘ad extra’ que é a vida da Comunidade divina.

Para concluir:

Entendemos que o significado de Maria na nossa cultura, à luz das Pessoas divinas em relação, é visto a ‘olho nu’, em três fatos que já têm sua história e sua caminhada distinta em todos os Continentes povoados da nossa Mãe-Terra. São eles:
1)- O nosso povo tem seu modo de cultuar a Maria que não exclui nenhuma das Pessoas da Comunidade divina. É a reflexão teológica que não consegue elaborar o desafio pastoral levantado pelo jeito que o povo tem de encontrar em Maria um canal de sua fé cristã e católica.
2)- A presença maciça das mulheres em quase todas as instâncias da vida humana com seus segmentos políticos, sociais, culturais e religiosos.
3)- A mudança de paradigma que mostra a queda do patriarcado na qual o homem começa sentir a necessidade de fazer acordo com a mulher, percebe que não é pelo domínio e nem pela determinação só dele que pode caminhar para frente. Mas homem e mulher Deus os criou (cf. Gn 1,27).

MARIA, FILHA PREDILETA DO PAI

Mãe Aparecida do Povo do Brasil
Amor – culto – cultura
Irmã Lina Boff
Professora da PUC-Rio, de Petrópolis e convidada pelo Antonianum de Roma
Prólogo: filha predileta do Pai
Esta frase evoca uma verdade fundamental da nossa fé cristã e católica, que é a filiação divina, nem sempre colocada na evidência teológica e mariana em que ela merece estar colocada. Se Maria é a filha predileta do Pai, como bem afirma o oitavo capítulo da Lumen gentium, perguntamos já de saída:
- Em que sentido Maria - a mulher do Antigo Testamento que abre o NT - vive esta filiação divina que a faz merecedora do título: filha predileta do Pai?
- De que modo se torna ela inspiração para a vivência da nossa filiação divina, no século XXI, da era digital e da globalização extremada?
- Qual sua influência nas expressões de amor ao Deus Uno e Trino da nossa fé, manifestadas no amor, no culto e na própria cultura?

Introduzindo o assunto
Maria é filha predileta. Em primeiro lugar é filha porque recebe de Deus o dom do seu amor que se manifesta na comunhão vital, pessoal e íntima que ela alimenta e vive com seu Deus. Esta intimidade que Maria vive ao longo de sua vida terrenal e ao mesmo tempo alimenta com seu SIM continuado, não é só física, mas uma comunhão de relação amorosa que ela recebe e acolhe de seu Deus e a esta relação se abre, inteiramente, a ponto se tornar uma comunhão histórico-salvífica, mediante a qual Deus a torna participante da história da salvação de todo o seu povo, e por graça da infinita liberalidade do Pai, a toda a humanidade. Esta concepção é a concepção bíblica predileta do Antigo Testamento que condensa a experiência histórico-salvífica do povo escolhido, na Pessoa do Messias que realiza o Projeto do Pai na história e o plenifica com sua morte e ressurreição.
Por isso, na base da tradição vétero-testamentária, há a eleição de Israel, pela qual o povo vive uma relação de filiação como um dom especial de Deus, porque o destino desta relação é escatológico, ou melhor, eterno. No Novo Testamento, a concepção de filiação divina que Jesus mesmo pouco utiliza em sua pregação do Reino, passa a ser palavra típica do cristianismo primitivo, que encontra sua raiz no batismo de Jesus: Tu és meu filho querido, eu, hoje, te gerei (Lc 3,22); na oração de agradecimento ao Pai pela missão dos setenta e dois discípulos, na qual repete a invocação Pai, por cinco vezes: Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste essas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece quem é o Filho se não o Pai, e quem é o Pai se não o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar (Lc 10, 21-22). A palavra Filho nesta breve perícope, é empregada por três vezes e em relação ao Pai, com quem o Filho entra na intimidade que plenifica a vida temporal e aponta para para a transcendência dos fatos históricos do povo de Israel. Pois, as coisas que o Pai ocultta às pessoas sábias e entendidas, não são facta bruta, mas vêm carregados de sentido e de graça salvadora.
A Carta aos Hebreus afirma, estar acima a dos anjos a ação de Jesus na história, porque veio ocupar-se, como Filho dileto, Filho querido da descendência de Abraão, por isso o autor sagrado repete: Tu és o meu Filho dileto, eu hoje te gerei! (Hb 1,5).
Jesus se sente Filho, e assim se relaciona com o Pai. É esta consciência que o consola quando se sente abandonado e rejeitado pela humanidade insana. A consciência que Jesus tem desta realidade e que nos dá a conhecer, de que só o Filho conhece, verdadeiramente, o Pai e de que só o Pai, conhece, verdadeiramente, o Filho, nos leva a uma afirmação que tem fundamento na eleição do povo de Israel. Jesus pertence ao povo de Israel, o povo eleito, e Ele é o escolhido dentre o povo eleito para dar a conhecer o mistério do Pai que ficou escondido há séculos e só agora, na pessoa do Filho dileto, é conhecido e anunciado a todas as nações (cf. Rm 16, 25ss). A eleição, a dileção que o Pai tem para com Jesus, é o fato de que Ele, como Filho, se abre de tal forma ao Plano do Pai, que este pode contar com Ele para a realização de seu Plano de Salvação.
Jesus, portanto, é o Filho dileto do Pai, é o preferido na estima e na afeição, é querido e especialmente, amado. Na prosa do padre escritor, Manuel Bernardes, presbítero da Congregação do Oratório de São Felipe Néri, em sua obra, Exercícios Espirituais, do século XVIII, utiliza o superlativo da palavra dileto para falar da íntima dileção de Deus Pai para com seu Filho:
Já que meu Deus foi tão misericordioso para com os homens, que os quis ensinar pela própria pessoa de seu diletíssimo Filho, ... eu quero, mediante a sua graça, aprender por este exemplar .
Pode-se evidenciar a intensidade da linguagem e a profunda mística que envolve este escritor clássico da prosa portuguesa. Enquanto que a palavra predileção, que também deriva da língua latina e que quer dizer quase a mesma coisa, pode ser explicada, em sua etimologia, da seguinte forma: estar diante da pessoa que se ama. A partícula pre, no latim, denota estar diante de, e dileta, dileção, significa a pessoa preferida na estima, na afeição, querida, especialmente, amada, palavra só dada a Jesus. Por derivação do amor que o Pai devota ao Filho, Maria é a filha pré-dileta do Pai, e é mãe do Filho diletíssimo do Pai, que é Jesus.

A perspectiva do Antigo Testamento
A linhagem bíblica de Maria de Nazaré, denominada pelos padres do Concílio Ecumênico Vaticano II, filha predileta do Pai (LG 53), por estar unida ao Pai, encontra-se ao mesmo tempo caminhando com a humanidade, filha de Adão e Eva, participando da mesma sorte e do mesmo destino. Este vínculo não se dissolve porque está intimamente, conectado com a missão desta mãe – a de marcar a História da Salvação com seu SIM incondicional e livre.
Nesse sentido, Maria está presente e vem da linhagem das Mulheres do Êxodo, que tementes a Deus, pouparam a vida de tantos meninos hebreus, desde o nascimento entre as duas pedras, com a finalidade de manter a presença numerosa dos hebreus em meio a um povo estranho (cf. Êx 1, 15-22). Vem da linhagem da filha do Faraó que arriscou sua nobreza terrena para salvar o Menino tirado das águas, prenúncio de libertação do povo escolhido por Javé (cf. Ex 2, 5-10).
Estas mulheres mostram que não querem a vida só para elas, mas têm consciência de que foram criadas para viverem como filhas e filhos do Criador, que é Pai de todos: poupam a vida dos meninos hebreus, porque a vida é um direito que pertence ao Deus Criador que tirou tudo do nada e não aos homens e nem às mulheres. Deus escolhe pessoas que cuidam da vida. E estas pessoas são mulheres de todas as classes sociais. Nesse contexto, encontramos as parteiras Sefra e Fuá e a filha do Faraó, que segundo a historiografia da exegese contemporânea, aparecem com nomes incertos, mas são apresentadas como mulheres que defenderam a vida arriscando a própria vida e a condição em que eram colocadas.
A filha predileta do Pai, é da estirpe das numerosas filhas de Jerusalém, como narra o mais belo Canto que celebra o amor de um Amante e de uma Amada-amante, que se aproximam e se distanciam, se procuram e se perdem, se buscam e se encontram, mas, se unem no amplexo do amor do meio-dia que não tem sombras, numa interpretação alegórica do amor humano que transcende a terra para chegar ao céu (Gregório de Nissa comentando o Cântico dos Cânticos em Ct 1,5+8,4).
A filha predileta do Pai, vem da árvore genealógica da tradição israelítica, em que a figura feminina protagoniza o momento de esplendor e de projeção que aponta para o sentido universal e coletivo da presença de Javé em meio a seu povo. As filhas de Israel são carregadas sobre as ancas para celebrar o retorno do exílio e o esplendor da cidade santa e sagrada pelo povo; é filha que recebe a luz de Javé, trazendo as riquezas da terra e as riquezas da glória e esplendor do Deus que edifica, enaltece e realiza as coisas que promete (cf. Is 60,4).
A filha predileta do Pai, é a filha de Sião, membro do povo de Israel a quem é dirigida a profecia com estas palavras: Farei de ti eterno motivo de orgulho, motivo de alegria, de geração em geração (cf. Is 60,14). O profeta acrescenta ainda: Serás chamada Procurada! Cidade habitada! (Is 62,12).
A filha predileta do Pai vem de uma aproximação das várias expressões bíblicas do Êxodo e dos Profetas. Com a expressão “filha predileta do Pai”, pode-se deduzir que esta se encontra na figura de Maria, a profetisa, irmã de Moisés, que pega no tamborim e todas as mulheres a seguem com seus tamborins também, para cantar e dançar a libertação de seu povo. Elas estão nas expressões que o autor sagrado tanto repete nesta narrativa: Os filhos de Israel, Israel (cf. Êx 14-15), expressões que têm como desfecho a Maria do tamborin, que toma a iniciativa de proclamar a Javé, vestido de glória pelos seus feitos (cf. Êx 15,21). Nesta narrativa ela não é chamada de filha, mas pertence ao povo de Israel que se organiza com suas filhas e filhos, para dar o golpe no Faraó e marchar em direção à Promessa feita a Abraão, a Isaac e a Jacó. Esta é a filha predileta do Pai que participa, com seu povo e seus chefes, incluindo e dando igualdade de dignidade filial a todos e a todas.
A filha predileta do Pai, vem da linhagem profética do espírito de Javé. Aqui, ela não pode deixar de estar na efusão do espírito profético sobre todo o povo de Deus, preanunciado pelo profeta Joel e proclamado por Pedro, em seu primeiro discurso aos povos de tantas proveniências, no dia de Pentecostes (Cf. Jl 3, 1-5 e At 2, 16ss). Joel fala desta nova criação, afirmando que Javé derramará seu espírito sobre vossos filhos, e, dirigindo-se às filhas de Israel, o profeta é claro: ... e vossas filhas profetizarão. Esse espírito da profecia será derramado, igualmente, sobre as escravas (Jl 3, 1-2). Não é esta a filha predileta do Pai que tem a coragem de inaugurar novos tempos de inclusão e igualdade para todos e para todas? É no espírito de Deus que tem origem a filha predileta do Pai. Por isso, ela é uma personalidade coletiva que ultrapassa a própria figura e a própria corporalidade com que foi plasmada pelo Pai, Criador de tudo e de todas as coisas.
A filha predileta do Pai, é uma personalidade simbólica, portanto, porque coletiva. Não é uma pessoa privada, mas sua representavidade cobre todo o povo de Israel e se torna uma protagonista ao participar na realização de sua libertação dos opressores. Ela está na arte, na música, na pintura e na ópera que perpassa os tempos e as modas. A ópera de George Frederic Handel (1742), intitulada MESSIAH – O Messias – por exemplo, é apresentada com vigor e majestade, na sua forma narrativa, adaptando as cenas destes textos bíblicos para fazer um espetáculo que perpassa os séculos e continua, todavia, até em nossos dias, enchendo-nos de contemplação e mística, Handel com seu veio musical e seu pendor religioso e genial, nos anuncia que o Reino está no meio de nós, através da sua narrativa que perfila os traços característicos do Filho diletíssimo do Pai, figurado em Isaías; e os traços da filha predileta do Pai, que participa do amor que o Pai dá ao Filho e que caminha conosco pelos caminhos da vida dos nossos povos.
Finalmente, a filha predileta do Pai, é celebrada de forma lírica nos momentos da liturgia israelítica, em que povo refresca a memória de sua caminhada histórica feita de eventos e de fatos que marcam, continuamente, a progressiva revelação do Deus da vida e da razão de viver do povo. Esta lírica religiosa nos foi conservada pelos Salmos. Estes falam da filha predileta do Pai, como a filha de Judá, que exulta porque o Senhor está presente com sua justiça em todas as cidades. A filha de Judá é aquela que anuncia a grandeza de Javé desde a montanha sagrada de Sião. Por isso, é a filha de Sião que une e reúne todos os povos no louvor de um único Senhor e Deus (cf. Sl 48,12).
A filha predileta do Pai é semelhante às colunas que sustentam o palácio e sua beleza, as quais lembram as cariátides gregas, figuras femininas que amparam a justiça e o direito do rei.
Mas esta filha predileta do Pai, ao mesmo tempo que embeleza e guarnece os celeiros do Rei Eterno, com sua participação à vida divina como filha, evoca a prosperidade messiânica para todo o povo de Israel, que apostou em tantos reis terrenos e teve que suportá-los na sua iniqüidade, por tantos séculos e até milênios. Esta filha amada, é a predileta do Pai, porque aponta para a intercessão do Filho junto ao Pai, intercessão da qual participa, trazendo as riquezas messiânicas da liberalidade de Deus Pai para com seus filhos e filhas que somos todos e todas nós.

Como tudo isso se atualiza na perspectiva do Novo Testamento
Comecemos pela mulher que se destaca pela missão que Deus lhe pediu. A mulher escolhida para ser a mãe do Messias, o Enviado do Pai, o Filho diletíssimo do Pai, não podia deixar de ser a filha predileta deste Pai, que revela suas entranhas de mãe, no dizer dos profetas , e no dizer da pregação do Reino feita por Jesus. Ele toma o exemplo da mulher que se alegra ao encontrar a moeda perdida, ao fazer o pão que cresce com o fermento, ao admirar-se da fé indevassável da cananéia e da coragem das mulheres da primeira hora na manhã da ressurreição. A todas estas mulheres, na pessoa das últimas – as da manhã da ressurreição – recebem do Ressuscitado a missão de serem anunciadoras da Boa Nova da vida trazida pelo Ressuscitado, que se mostrou por primeiro, às mulheres e a estas deu-lhes a missão de anunciarem aos discípulos, seus irmãos, a Boa Nova da ressurreição do Filho de Deus, o Cristo Senhor que se torna o doador da vida divina. A esperança do povo de Israel começa a se realizar na medida em que as pessoas aderem a esta Grande Novidade.
A predileção de Deus com relação a Maria, a humilde serva do Senhor, evoca os primeiríssimos tempos da insurreição do ano 70 d.C., em que sempre se constata a presença do servo entre os hebreus. Como filha predileta do Pai, Maria anuncia a livre iniciativa do Pai com relação a sua vida e a sua missão junto ao povo de Israel ao se proclamar serva do Senhor; e é filha predileta porque grandes coisas fez em mim aquele que é todo poderoso.
Maria é filha predileta do Pai porque crê na ação da providência que lhe faz tomar consciência de que o filho que ela gera de suas entranhas é o Filho de Deus. Ela é a predileta porque se encontra sempre presente nas discussões mais aferradas que se estabelecem em torno à origem humana e divina de seu filho, que até na metade do II século, o problema genealógico do Cristo, não estava ainda apagado, na Igreja daquela época. E hoje, a quantas estamos?
A filha predileta do Pai, no Novo Testamento, portanto, se encontra no contexto e na história factual da mulher que busca Jesus porque Ele responde às profundas interrogações que ela mesma se coloca diante de seu Deus e de seu jeito de pronunciar e invocar seu nome santíssimo. Nesta busca a mulher – a filha predileta do Pai do tempo de Jesus – entra em relação direta e encontra-se com Jesus, e tem com Ele uma relação que ultrapassa a dimensão humana que a leva a fazer uma experiência de tocar o mistério que transcende a própria relação humana. A imanência manifestada por Jesus é vivida, pela filha predileta do Pai do Novo Testamento, como transcendência que redireciona a vida e a missão desta mulher.
A narrativa de Marcos nos fala de uma certa mulher que sofria de um fluxo de sangue há doze anos. É uma mulher doente, é a mulher da clandestinidade, vai além da lei, faz o papel de “penetra”, porque se aproxima de Jesus num momento em que muitas pessoas acorrem ao mesmo tempo à pessoa dele Jesus a chama de minha filha, e a presenteia com a notícia da cura: ... a tua fé te salvou; vai em paz e fique curada desse teu mal (Mc 5, 34.35). Na versão da comunidade de Mateus, encontramos esta expressão: Ânimo, minha filha, tua fé te salvou! (Mt 9,18). Jesus percebe a angústia e a ansiedade com que esta mulher toca a orla de seu manto em meio aos discípulos de João, que um após outro, intervém, incluindo um chefe de sinagoga que implora pela filha já morta, sem contar os curiosos que se aglomeram. Tudo está acontecendo ao mesmo tempo.
Em meio a esse tumulto, a mulher apresenta-se sozinha, ninguém a acompanha, e ela tem consciência de como está sendo vista e tratada por todos os que estavam aí: ela é uma pessoa “impura”, que a Lei a exclui por ser “impura”. Mas Jesus une e reúne esta mulher à coletividade que o cercava e a trata com a mesma consideração dada a todas as pessoas que O solicitam, naquele momento. Ela a inclui na sociedade que não quer saber dela.
A mulher da doença que a envergonha diante de seus conterrâneos e conterrâneas, sai da exclusão social e religiosa e da exclusão econômica também, pois havia gasto todos os seus bens sem resultado. A cura é atribuída à sua persistência e à sua fé: Ânimo, minha filha, a tua fé te salvou! (Mt 9,22). O encontro desta mulher com a cura definitiva, é fruto de sua invisibilidade, clandestinidade e seu silêncio cheio de fé, três pequenas coisas que roçam, que tocam o manto, de leve, do Messias e guardam dentro de si poderes de infinito.
Os pequenos e grandes gestos feitos por Jesus, nos levam a pensar que tais gestos são verdadeiros “sinais” que revelam o “rosto” do Pai que está presente na pessoa do Filho que se aproxima das mulheres. Não seriam estas as filhas prediletas do Pai do tempo de Jesus? A hemorroíssa encontra-se com Jesus às escondidas, daí a frase encorajadora dele: Ânimo, minha filha! E sem querer, nem premeditar, o ato desta mulher vem a público.
Em outro contexto descrito por Lucas, Jesus vê uma mulher recurvada de nascimento, fora do templo fazendo sua prece a Javé, porque, segundo a lei de Moisés, não lhe é permitido o acesso ao lugar sagrado pela deficiência com que nasceu. O ensinamento de Jesus dá um novo sentido a esta lei e retoma a fé exemplar de Abraão, e com autoridade, sem rodeios, contrapõe: Esta filha de Abraão, não tem o direito que o boi e o asno do estábulo têm, de beber água em dia de sábado? (cf. Lc 13,14s). Esta mulher nada pede a Jesus. É Ele que se aproxima para tirar-lhe o estigma que a excluía do lugar sagrado, que para o judeu ter contato com o Templo de Jerusalém significava observar, rigidamente, sérias prescrições ditadas pela Torá. Esta filha de Abraão, isto é, filha da herança deste povo fiel a Javé, tem o direito de ser incluída junto com todos os seres humanos que aí se encontram, no templo sagrado e de viver a lei que foi dada para todo o povo, não para estar fora do templo, mas dentro dele e da sua sacralidade.
Para chegar a esta inclusão, Jesus não olha para o templo e nem para o tempo considerado, segundo a religião do povo, tempo sagrado. O sagrado foi feito para servir à pessoa humana necessitada e não para submeter esta pessoa ao sagrado. O sábado foi feito para o ser humano e não o ser humano para o sábado (cf. Lc 13,16). Esta filha de Abraão lembra a dignidade humana e o direito, ela pertence à nação eleita, à descendência abraâmica. Ela não é apenas uma descendente da fé abraâmica, mas é da descendência messiânica. Ela é da mesma árvore genealógica, da mesma estirpe de Abraão, mas participa da descendência do Messias esperado pelo. Neste episódio, Jesus percebe, claramente, que a plenitude e o cumprimento da lei, passam também pela transgressão do sagrado, para que haja misericórdia, inclusão, vida e não sacrifício. Este é o espaço sagrado da vida.
Em João e sua comunidade, a filha predileta do Pai é um nome coletivo, é a filha de Sião, o povo eleito, o povo da Aliança que recebe seu Rei-Messias montado num jumentinho (cf. Jo 12,15). O autor resgata a memória do povo que deve voltar a retomar a doutrina messiânica que ressurge da casa de Davi. Há uma preocupação em apresentar a humildade do Messias que está para chegar, em vestes simples e atitude pacífica, contrapondo-se aos reis históricos que o povo teve antes. Esta figura é retomada também por Mateus e Marcos em suas narrativas da paixão. A preocupação que o profeta Zacarias mostra com a restauração do culto do templo, transparece também no Messias que vem para celebrar a aliança que o povo deve retomar.
Concluindo nossa reflexão, podemos afirmar que Maria vem na linhagem das grande mães do povo de Israel, das proféticas matriarcas que sempre se colocaram do lado do povo e das mulheres que no tempo de Jesus, buscavam n`Ele aquilo que a mãe sempre busca para salvar seus filhos e filhas. Maria está presente nas “Marias” de hoje e como discípula-mãe, nos acompanha precedendo-nos no seguimento de Jesus, seu filho e Filho do Pai Eterno. Amém!